O Congresso Nacional está em regime de convocação
extraordinária. Isto quer dizer que os senhores parlamentares,
deputados federais e senadores, irão "trabalhar" alguns
dias a mais e receberão dois salários extras em troca.
Esse fato, que se repete a cada ano, atesta a total incompetência
dos nossos congressistas. Além de incompetentes, são
espertos, no mau sentido.
Passaram o ano inteiro fazendo discursos inúteis, deixaram de
votar matérias cuja apreciação era sua obrigação,
atacaram-se mutuamente situação e oposição,
conversaram sobre os mais diversos assuntos e vai por aí.
As sessões são um graça: alguns não comparecem,
outros dão-se como presentes e saem, voltam, tornam a sair,
enfim, aquilo parece casa de mãe Joana. E todas essas coisas
acontecem de terça a quinta-feira, porque as casas não
se reúnem às segundas e sextas-feiras. É mole?
Nos primeiros dias das sessões extraordinárias quase
ninguém apareceu. Também, seria exigir demais desses
representantes do povo. Afinal, estamos às vésperas de
Natal e Ano Novo.
Quer dizer, estão recebendo três salários no mês,
além dos penduricalhos de praxe, para não fazer nada
de útil.
E nós, eleitores por obrigação legal, temos que
conviver com tal descalabro.
Em pouco tempo iremos nós, obrigatoriamente, de novo às
urnas para escolher quem vai merecer ganhar tantos privilégios. É tão
ridícula a situação que esses senhores, mesmo
agindo como agem, merecem entre sí o tratamento de "Vossa
excelência", quando em plenário. É brincadeira,
como já disse alguém. Não dá para aguentar.
Eles têm que votar o orçamento para 2006. A maioria nem
sabe o que é um orçamento. Discutem mais as famosas "emendas",
ou seja, as verbas que cada um deseja incluir na lista de despesas
do governo, para fazer média em seus currais eleitorais.
Será que esses homens e mulheres, eleitos que são pelo
povo, pagos que são pelo povo, não têm a menor
consciência do seu papel? Não são capazes de trabalhar
com um mínimo de organização, para honrar o mandato
que receberam? Será que eles acham que tanto faz fazer ou deixar
de fazer? Pobre Brasil. Ninguém é capaz de ter uma boa
idéia para melhorar alguma coisa neste país?
Parece que o objetivo maior dos parlamentares é a infindável
luta entre governistas e opositores. Isto é, para eles, um fim
em sí mesmo? Será que não tem um congressista
capaz de alertar os demais para o que é realmente importante
para o Brasil e convocar os seus pares para que tomem consciência
do seu verdadeiro papel? Será que somente são capazes
de pensar em como se eleger nas próximas eleições?
Não tem jeito. O Brasil, em termos de um futuro mais promissor,
não tem a menor possibilidade. Além de um poder legislativo
obtuso, tem também os poderes executivo e judiciário
totalmente retrógrados. O negócio de todos eles é serem
donos do poder, usufruir de suas benesses, dane-se o resto. O resto
somos nós.
Além de donos do poder querem, e tudo fazem nesse sentido, permanecer
no poder a qualquer custo.
Não têm nenhuma auto-crítica da sua incompetência,
da sua falta de visão, falta de espírito público,
enfim, somos governados por um punhado de pessoas muito espertas. E
como são espertas.
Não vejo como, a curto e médio prazo, talvez até a
longo prazo, vislumbrar um futuro menos dramático para a maioria
da população brasileira. Quase todos estamos dentro de
um barco, prestes a naufragar. Salve-se quem puder. Alguns não
estão nesse barco. Estão tomando uísque e vendo
o tempo passar. Ou fazendo discursos.
Augusto Canabrava
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