Tenho expressado meu pensamento sobre a situação do Brasil e, consequentemente,
sobre a situação dos brasileiros em outras crônicas aqui
publicadas.
Nelas eu não escondo o meu desalento em relação a esperar
por dias melhores para nós, brasileiros. Quando digo para nós,
brasileiros, refiro-me à grande maioria da população, com
a exclusão, naturalmente, das elites que já se apossaram do país
e para as quais continuamos, como pobres inocentes e ignorantes, a contemplar
com nossa apatia e falta de mobilização contra as injustiças
sociais a que nos deixamos submeter.
No presente momento, o mais sofrido dos brasileiros, o mais injustiçado,
seja ele consciente ou não do que acontece no país, está passando
por um estado de euforia com o desenrolar dos jogos pela Copa do Mundo de futebol.
Deixamos de lado os nossos padecimentos, as nossas carências, as nossas
dificuldades de vida para voltar as nossas atenções para uma competição
esportiva, na qual o Brasil tem tido destaque internacional.
E´ como se, de repente, alguém que estivesse sofrendo com uma terrível
dor, encontrasse o alívio em um potente analgésico, de última
geração. Ou como se uma pessoa, em profundo estado de tristeza,
a afogasse embriagando-se no bar da esquina. Tanto a dor quanto a tristeza estarão
de volta assim que os efeitos do analgésico e do álcool se tornem
inócuos.
Assim como acorre por ocasião das disputas de Copas do Mundo, acontece
durante os Carnavais. O povo se deixa iludir, nem que seja por um tempo reduzido,
esquecendo-se completamente da vergonhosa situação em que vivemos,
no que concerne à nossa qualidade de educação, nos péssimos
serviços de saúde pública, no trabalho mal remunerado, na
falta de oportunidades e perspectivas de melhorias.
São esquecidas todas as bandalheiras que ocorrem entre os nossos políticos,
a incompetência dos governantes e a comodidade dos nossos magistrados.
Também não é lembrado que os banqueiros estão cada
vez mais ricos, que existe um monte de espertalhões por trás das
numerosas "igrejas" que têm sido criadas no Brasil, fazendo enriquecer
os seus criadores, à custa da simploriedade de grande parcela da população.
O dinheiro com o qual todas estas classes se locupletam é o mesmo dinheiro
que é subtraído de todos nós que pagamos impostos ou que
nos convencem a doar em nome de Jesus. Inventaram até uma maneira de tornar
mais difícil a vida dos aposentados da previdência social, com o
tal de empréstimo consignado. Como que uma pessoa que ganha, digamos,
dois salários mínimos, pode tomar emprèstimo em bancos ou
em tamboretes criados a partir dessa invenção? Se o empréstimo
resolve um seu problema imediato, cria-lhe uma dificuldade por um tempo enorme,
provavelmente restringindo-lhe a capacidade de, ao menos, se alimentar.
Caso o Brasil conquiste a taça na Alemanha, mais tempo vai durar a alienação
do povo e ela será, certamente, bem aproveitada nas próximas eleições.
E assim nós vamos vivendo. Até quando?
Augusto Canabrava
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